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Felicidade criativa: rir para não chorar

Fradinho, do Henfil
Saulo

O Saulo trabalhava no estúdio de arte da agência e usava um aparelho de surdez daqueles antigos, que tinham um fio ligado a uma caixinha de som que ficava escondida no bolso da camisa. Era muita tentação, ver aquela caixinha de som ali no bolso dele, sem pensar em bobagem. Bem, eu estou sempre pensando em bobagem, mesmo quando estou tenso ou sobrecarregado de trabalho.

Pois um dia eu consegui surrupiar o tal aparelho, aumentei o volume ao máximo e soltei a voz, imitando um cantor brega da televisão: “receba as flores que lhe doooooou” altos brados, todos os decibéis que minha garganta pudesse produzir. Não foi engraçado, porque o Saulo ficou roxo, seus olhos se encheram de lágrimas e ele soltou um uivo de dor.

Depois que as coisas se acalmaram, ele recuperado da dor, eu recuperado do susto, ele me explicou que aquilo causava uma dor insuportável aos seus ouvidos, por causa da estática. Nada que não fosse perdoado mais tarde, à noite, quando eu sempre lhe ajudava a argumentar com as mocinhas de um certo night clube do centro da cidade, chegando sempre a uma boa negociação do cachê profissional para um rápido encontro no quartinho de um dos motéis da região. Para ele era muito complicado discutir, com sua dificuldade auditiva que lhe tirava a articulação para falar, também. Nessas noitadas, ele esquecia todas as sacanagens que eu aprontava com ele e a gente era somente um par de bons amigos. No dia seguinte, certamente eu lhe pregaria outra peça, mas isso só no dia seguinte. Mais um chope, a noite é uma criança, eu dizia. A notxe ééé cliançaaa, repetia ele.

Marquinhos

O Marquinhos formava comigo uma dupla de criação, era um diretor de arte de temperamento forte, nunca comigo, diga-se. Mas era brabo, aquele paraibano quase xucro, e tinha um amor imensurável por sua Brasília bege, que ele ficava espiando a todo instante pela janela da agência. Um dia consegui pegar as chaves do carro e fui até o estacionamento sem que ele notasse. Mudei o carro dele de vaga e voltei para a agência. Logo, ele foi dar a sua espiadinha pela janela, para conferir se estava tudo bem com o seu carrinho adorado. Quase teve um colapso quando não encontrou a sua Brasília na vaga onde a tinha deixado.

Claro que eu sugeri que fôssemos à delegacia, que era preciso dar queixa, afinal era um patrimônio. Ele quase chorava, enquanto a gente andava pela Rua México na direção de uma suposta delegacia, mas eu desviei o percurso na direção do estacionamento onde ele sempre deixava o adorado carrinho. Só quando chegamos bem junto ao próprio, ele se deu conta: ué, olha o meu carro aqui! Eu segurei o riso e emendei: tá vendo? Você deve ter se confundido. Ele coçava a cabeça, ficava girando em volta de si mesmo, olhando para onde tinha deixado o carro. Quando ele me encarou a gargalhada estourou. A cara dele ficou vermelha. Eu me preparei para o pior, mas ele me abraçou e falou: seu filho da puta, seu fosse um outro qualquer eu enchia de porrada! E nunca mais deixou as chaves da Brasília em cima da mesa.

Vic

O Vic era um profissional sênior, experiente, cheio de histórias e dono de uma imensa cultura que a sua condição de filho de embaixador americano com uma polonesa, nascido na China, lhe proporcionava. Era sino-polaco-americano. E era o supervisor de criação da agência. E também era bem sério e formal. Fumava cachimbo. Bem, aquele cachimbo era uma tentação para uma certa dupla de malfeitores, tipo tutor e aprendiz: Ney Azambuja e eu. Às vezes o Vic ia ao banheiro e deixava o seu cachimbo num pedantíssimo porta-cachimbos em ciam da sua mesa.

A gente ficava espreitando, esperava ele fechar a porta do banheiro e corria com o cachimbo até o estúdio de arte, pegava cola de sapateiro, que era usada para colar textos nos layouts naquele tempo, e enchia o cachimbo dele com aquela gosma que em poucos minutos secava e virava quase um cimento, uma borracha. Toda a operação era de altíssimo risco, porque ele poderia sair do banheiro antes que a gente tivesse recolocado o cachimbo em seu lugar. Mas valia a pena: vê-lo chupar e soprar desesperadamente o cachimbo, desconfiado, tentando entender como ele estava entupido, tinha lá o seu valor. Um dia ele olhou para nós dois, Ney e eu, e sentenciou: eu não vi, mas imagino quem foi! E saiu, furioso, baforando seu adorado cachimbo.

Lindoval

Lindoval era o patrão, o dono da agência. Um empresário bem-sucedido, que naquela época esse negócio era muito rentável, acreditem. Ele se dava ao luxo de ter um quadro de artista famoso, não lembro qual, na parede atrás de sua mesa. O quadro era motivo de muito orgulho. E ele demonstrava grande afeição por ele, claro. Mostrava aos clientes que visitavam a agência. Orgulhoso, adorava nos chamar à sua sala para conversar e sempre aproveitava para ajeitar o quadro, medindo milimetricamente o prumo, cheio de cuidados. Sempre que eu ia à sala dele, esse exagero de zelo me chamava atenção. O mesmo acontecia como o meu tutor de traquinagens, o Ney.

Bem, não preciso dizer que tivemos uma ideia conjuntamente, que viraria um hábito, toda vez que ficávamos até mais tarde na empresa. Devo dizer, também, que além de lucrativo, aquele negócio rendia muitas noites viradas. E a gente ficava até mais tarde, e eu por ser júnior era sempre escalado, claro. Era escalado pelo próprio Ney que, assim, garantia duas comodidades: o parceiro de crime e a carona para casa. Detalhe, eu morava a meio caminho da casa dele. Mas eu era júnior, ele era sênior. Eu esticava o itinerário diariamente para deixa-lo na porta de casa.

Bem, vamos voltar ao assunto que interessa. A verdade é que, nessas noites que ficávamos até tarde na agência, a gente nunca esquecia de, antes de sair, dar um pulinho na sala do Lindoval e virar o quadro dele de cabeça para baixo. Inclusive com o extremo perfeccionismo de verificar milimetricamente o prumo, como o próprio dono fazia. Era maravilhoso ouvir, no dia seguinte, a voz rouca do patrão ecoar impropérios para o desgraçado, o sem mãe, que tinha virado o seu quadro de novo. Ney apenas olhava para mim, com aquele seu sorriso de crocodilo dentro d’água, eu devolvia um olhar de mais uma vez, missão cumprida.

Felicidade Criativa

Porque estou contando essas histórias? Porque eu quero falar de Felicidade Criativa. Quero falar de um projeto lindo do CCRJ, agora sob a batuta do Daniel Japa, que pretende recuperar esse espírito libertário, sem amarras, até sem vergonha, que havia nos departamentos de criação das agências de publicidade do Rio de Janeiro. Esses episódios aí em cima são apenas uma ínfima parte de tudo que vivemos depois, nas outras agências onde trabalhei tanto quanto me diverti, ao longo de umas boas décadas. A MPM, a Estrutural, a J.W.Thompson, a Artplan, a Giovanni.

E essas agências, por coincidência (será?) eram sempre as mais premiadas do mercado, por anos seguidos, em diversos festivais e premiações da publicidade no Brasil e no exterior. Tem lá a sua lógica. Perguntem aos jogadores do time do Flamengo atual. Eles estão, como diz o seu técnico português, antes de tudo, desfrutando. Se você quer que a sua agência voe, decole, flutue acima das outras, pense nisso. Antes de dizer trabalhe, diga desfrute.

Quando a gente gosta muito de estar em um lugar, ele deixa de ser labuta e vira uma grande diversão. Felicidade Criativa é isso.

Eu sei, eu já pratiquei muito.

Toninho Lima

Toninho Lima

Toninho Lima é redator, atualmente na Kindle, professor na Miami Ad School e articulista na Janela Publicitária
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