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Padilha é emérito freqüentador das boas mesas, cadeiras, banquinhos e calçadas da boemia carioca.  
 

19.02.07

Penafiel

Alguns bares e restaurantes históricos nos conduzem a lugares e épocas distantes, muito além da gastronomia. O Penafiel, no mesmo lugar desde 1913, é um deles. Foi isso que pensei quando saí do caos das ruas do centro do Rio e atravessei a estreita entrada do restaurante, onde o couro de um bezerro, gravado com o Brasão do estabelecimento, protege um balcão refrigerado contra o sol forte da hora do almoço.

Penafiel (Entrada)

Neste canto da cidade, o século XX resiste elegantemente à passagem do tempo e das pessoas alheias às suas histórias. Parecia que eu entrava em um antiquário.

Lá dentro, o salão é reto e comprido, com pé-direito alto, paredes de azulejos brancos, ventiladores italianos da década de 40 e lustres de lâmpadas fluorescentes. “As primeiras do Rio de Janeiro. Compradas na Galeria Silvestre!”, garante com orgulho o proprietário Ricardo Silva, neto do fundador. Que carioca com mais de 35 anos não lembra da rádio relógio e sua vinheta de patrocínio “Depois do sol, quem ilumina o seu lar é a Galeria Silvestre”?

Lembranças da cidade portuguesa de Penafiel, espalhadas pelas paredes, atestam a origem lusitana da casa. Fotos da Igreja da Matriz, do Mosteiro de Paço de Sousa, do Sameiro, entre outras. A hospitalidade e a simplicidade com que recebem os clientes também são característicos dos portugueses.

No fundo do salão, os pratos do dia ficam expostos em um balcão para que sejam mostrados aos clientes, como o arroz de lula com brócolis ou a especialidade portuguesa língua defumada com feijão manteiga. No cardápio há ótimas opções, como o bacalhau desfiado e gratinado com arroz de brócolis ou a posta de cherne ao alho e óleo com batatas cozidas e cebola frita. Essa última é para comer de joelhos. Mas há pratos brasileiríssimos e excelentes, como o mineiro frango com quiabo e batatas portuguesas (ok, as batatas são portuguesas), que chega a fazer inveja aos preparados em Minas.

Antes de pedir o prato principal, dê início aos trabalhos pelo petisco do dia, como as famosas empadas de camarão, que só saem às sexta-feiras.

Penafiel (Doce de Laranja)

No quesito sobremesas, minha sugestão é o caseiro doce de laranja-da-terra. É a especialidade da casa. Ou, se preferir, o delicioso mineiro de botas, que é feito com banana frita e queijo minas derretido.

Não deixe de reparar na arquitetura do lugar. A mobília original muito bem conservada, o mezanino com o nome do restaurante, a cozinha ampla e arejada. Em especial, não deixe de reparar na pia. Ela é original, com acabamento de mármore e tem ao seu lado uma inusitada escarradeira, talvez a última da cidade. Lembrança de um tempo em que era normal as pessoas “limparem a garganta” em público. No entanto, você pode ir sossegado que o apetrecho continua lá, mas não é mais utilizado por ninguém.

Penafiel
Av. Senhor do Passos, 121
Centro – Rio de Janeiro
(21) 2224-6870

por Padilha às 12:59:35
Almoço

06.02.07

A TV do Botequim entra no ar!

O Botequim do Padilha está começando uma nova fase.

A partir de agora, além de encontrar com o nosso comentarista gastronômico José Raimundo Padilha através dos seus textos brilhantes sobre o que há de melhor no circuito de bares e restaurantes do Rio de Janeiro -- e, algumas vezes, do mundo -- o leitor também vai ter a oportunidade de dividir a mesa com ele, em vídeos de dar água na boca, disponíveis aqui no site e no YouTube.

Para começar, a TV do Botequim do Padilha revisitou o Pavão Azul, tradicional bar-restaurante de Copacabana que serve -- o Padilha garante --, a melhor patanisca do Brasil.

Divirtam-se. E bom apetite.

Marcio Ehrlich
Editor

por marcioehrlich às 19:10:45
Happy hour


Pavão Azul

Orgulho que trago comigo é ser um turista gastronômico. Acredito que sabemos muito de um povo e de sua cultura através da maneira como eles preparam sua comida. Não é à toa que a culinária inglesa é sem sal, a indiana é picante e a italiana é exagerada. Por isso é que saio garimpando por aí sabores que ainda não experimentei.

Não faz muito tempo descobri um petisco típico lisboeta chamado patanisca. Uma espécie de bolinho de bacalhau feito sem batata, só com ovos, farinha e temperos, difícil de encontrar aqui no Rio. Tive que ir de Botafogo até a Tijuca especialmente para conhecer a patanisca de Dona Natalina, do Café e Bar Varnhagem, na praça do mesmo nome.

Recentemente, no entanto, fui apresentado em Copacabana a uma patanisca que merece o título de a melhor da cidade, no Pavão Azul, bar com quase 50 anos de existência, que fica em frente da 12ª DP na Hilário de Gouveia. É um daqueles botequins cariocas autênticos, aconchegante e nada simplório, comandado com dedicação e carinho por duas irmãs simpatissíssimas, Vera e Bete, que se revezam cuidando de cada detalhe.

Pavão Azul

A patanisca que elas preparam é espetacular, feita na hora a pedido do freguês, e servida por unidade ou porção. Chegam douradas à mesa e são perfeitas. Crocantes por fora, suculentas e fumegantes por dentro. Dá para comer uma dúzia brincando. Principalmente se acompanhadas do chopp, que é muito bem tirado, ou cerveja, que está sempre gelada, Bohemia e Original. Se você já conhece, deve estar concordando. Se não conhece, espere só para ver como a patanisca do Pavão Azul é gostosa.

O segredo com certeza está no tempero e na combinação dos ingredientes, que Vera e Bete não revelam a ninguém. Esse é o motivo da casa servir de 400 a 600 pataniscas todos os finais de semana. E olha que essa não é a única atração gastronômica de lá. No quesito camarão, tem a empada, o pastel e o risoto que são muitíssimo bem avaliados pela clientela que lota o local. E nos finais de semana, quando muitas famílias vão ao Pavão Azul para almoçar, elas preparam uma rabada e um risoto de polvo que é de chorar, segundo quem já comeu e é freguês.

O resto você já sabe, é se render ao clima comunitário dos autênticos botequins familiares onde todos são seus melhores amigos de infância, mesmo que nunca os tenha visto antes na vida.

Pavão Azul
Rua Hilário de Gouveia, 71
(21) 2236-2381
Copacabana – Rio de Janeiro

por Padilha às 11:03:43
Almoço

16.10.06

Descrever o Miam Miam é tarefa difícil. Seria mistura de bar descolado com restaurante fashion? Ou blended de restaurante trendy com lounge bar? Você decide. O fato é que o lugar esbanja bom gosto e surpreende pela modernidade. A começar pelo imóvel, um casarão de 1890, tombado pelo Patrimônio Histórico e decorado com mobília original dos anos 50, 60 e 70. Além de obras de arte, como os ursinhos prateados do artista plástico Richard Gallo, que já estiveram na Bienal de São Paulo. Detalhe: a casa foi residência da avó da proprietária, a chef Roberta Ciasca, que largou a carreira de marketing pelas panelas da escola francesa Le Cordon Bleu.

O amplo salão de pé-direito altíssimo é dividido em dois ambientes. Logo na entrada, de frente para a rua, fica um confortável lounge com sofás, poltronas e mesinhas de centro, onde você pode se esparramar com amigos e apreciar os drinks e aperitivos que fazem sucesso por lá. Minha dica é o mojito, muito bem preparado, com vodka Absolut. Ou ainda a estimulante caipivodka de uva com gengibre. Para acompanhar, peça os famosos rolinhos de rosbife com parmesão e rúcula. Ou as bolinhas de soja com molho de iogurte e hortelã. Opções light e bem saborosas. Tem também um vatapazinho (é assim mesmo que se escreve) aperitivo, para ser comido sobre pequenos discos de tapioca, como um canapé.

Atrás do lounge ficam as mesas do restaurante, todas com pé palito, tampo de fórmica e acabamento em alumínio, típicas das cozinhas brasileiras. Outro requinte do Miam Miam é que todos os móveis estão à venda, por conta de parceria com a loja de antigüidades Hully Gully. Gostou da poltrona? É só pedir que mandam entregar na sua casa. Tem até um cardápio de mobília, com a descrição dos móveis e seus respectivos preços. Mas fique tranqüilo, a comida é bem menos salgada.

A comida é outro diferencial do Miam Miam (que, em francês, significa nham-nham). A cozinha da chef Roberta faz comfort food, que é a tradução dos antigos sabores caseiros para a alta culinária moderna dos restaurantes. Segundo ela, uma “leitura sofisticada de ingredientes simples”. Meu prato favorito, e de uma legião de fãs, é a moqueca de peixe e camarão ao curry com arroz de coco, que vem numa tigela. Um espetáculo. Eu recomendo já com água na boca. E para encerrar, se quiser sobremesa, experimente o crepe de goiaba com calda de queijo.

Você pode ir ao Miam Miam apenas para beber e beliscar no lounge, ou ir só para jantar. O legal é fazer os dois. Se instale no lounge, peça uma bebida e uma entradinha. Assim você ganha tempo para escolher calmamente o que vai jantar em seguida. Combine com o garçon para ele aprontar uma mesa e chamar você quando o prato for servido.

Miam Miam
Rua Góes Monteiro, 34
Botafogo – Rio de Janeiro
(21) 2244-0125

por Padilha às 16:06:19
Happy hour

11.10.06

Astor

Chegou a vez de falar de São Paulo aqui no Botequim. Sim, porque foi-se o tempo em que a Terra da Garoa parecia perder para a supremacia inquestionável dos bares cariocas. Digo “parecia” porque São Paulo sempre teve bares tradicionalíssimos, como Bar Leo, Pandoro, Amigo Leal, Bar Brahma. E cresceu muito nesta área. Importou a decoração e o astral dos botequins cariocas, melhorou o chopp, diversificou o cardápio, caprichou na higiene e colocou manobristas na porta. O resultado foram bares com menos de 10 anos, que já abriram como clássicos: Posto 6, Filial, Genésio, Salve Jorge.

O maior exemplo é o Astor, na Vila Madalena. Sucesso criado por 5 amigos que haviam aberto antes os imbatíveis Original e Pirajá, precursores da tendência paulista de bares com cara de botequins cariocas da década de 50. No Astor, eles se superaram. Nenhum detalhe foi esquecido para fazer você se sentir no melhor bar da sua vida. A começar pela alma do botequim: os garçons. Todos são descoladíssimos e formam uma seleção tão entrosada que até os reservas são, no mínimo, como aqueles garçons que todo mundo conhece pelo nome.

Na decoração, piso hidráulico, vidro bisotado, cartazes lambe-lambe, réplicas de luminárias antigas e um balcão de madeira maciça talhada e mármore, que foi trazido diretamente de um antiquário nos Estados Unidos. Há dois salões, um amplo no térreo, e um menor no andar de baixo, onde ficam os banheiros, sempre impecáveis. Até quando vai tirar água do joelho, o sujeito tem som ambiente. Sem falar dos monitores de plasma, que entretêm os clientes com mensagens dos patrocinadores.

Mas este parque temático para boemios não estaria completo sem uma cozinha de primeira qualidade. E não tem o que se peça no Astor que não seja, no mínimo, excelente. Para petisco, os campeões são os deliciosos bolinhos de arroz e os surpreendentes croquetes de mortadela. Cerati, claro. Imperdíveis. No quesito sanduíches, o filé com queijo Palmira quente é ótimo. Se a fome apertar, meu favorito é o picadinho Astor, com arroz, feijão, farofa, pastel, ovo poché e banana à milaneza.

Acompanhando tudo, o insuperável chopp Brahma da casa, considerado o melhor de São Paulo há anos. Do jeito que os paulistas mais gostam: espuma densa e branca por cima de um líquido dourado e cristalino, estupidamente gelado.

Pois é, meu amigo. São Paulo pode não ter praia. Mas tem o Astor.

Astor
Rua Delfina, 163
Vila Madalena – São Paulo
(11) 3815-1364

por Padilha às 09:28:19
Happy hour

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