Categoria: Almoço
Alguns bares e restaurantes históricos nos conduzem a lugares e épocas distantes, muito além da gastronomia. O Penafiel, no mesmo lugar desde 1913, é um deles. Foi isso que pensei quando saí do caos das ruas do centro do Rio e atravessei a estreita entrada do restaurante, onde o couro de um bezerro, gravado com o Brasão do estabelecimento, protege um balcão refrigerado contra o sol forte da hora do almoço.

Neste canto da cidade, o século XX resiste elegantemente à passagem do tempo e das pessoas alheias às suas histórias. Parecia que eu entrava em um antiquário.
Lá dentro, o salão é reto e comprido, com pé-direito alto, paredes de azulejos brancos, ventiladores italianos da década de 40 e lustres de lâmpadas fluorescentes. “As primeiras do Rio de Janeiro. Compradas na Galeria Silvestre!”, garante com orgulho o proprietário Ricardo Silva, neto do fundador. Que carioca com mais de 35 anos não lembra da rádio relógio e sua vinheta de patrocínio “Depois do sol, quem ilumina o seu lar é a Galeria Silvestre”?
Lembranças da cidade portuguesa de Penafiel, espalhadas pelas paredes, atestam a origem lusitana da casa. Fotos da Igreja da Matriz, do Mosteiro de Paço de Sousa, do Sameiro, entre outras. A hospitalidade e a simplicidade com que recebem os clientes também são característicos dos portugueses.
No fundo do salão, os pratos do dia ficam expostos em um balcão para que sejam mostrados aos clientes, como o arroz de lula com brócolis ou a especialidade portuguesa língua defumada com feijão manteiga. No cardápio há ótimas opções, como o bacalhau desfiado e gratinado com arroz de brócolis ou a posta de cherne ao alho e óleo com batatas cozidas e cebola frita. Essa última é para comer de joelhos. Mas há pratos brasileiríssimos e excelentes, como o mineiro frango com quiabo e batatas portuguesas (ok, as batatas são portuguesas), que chega a fazer inveja aos preparados em Minas.
Antes de pedir o prato principal, dê início aos trabalhos pelo petisco do dia, como as famosas empadas de camarão, que só saem às sexta-feiras.

No quesito sobremesas, minha sugestão é o caseiro doce de laranja-da-terra. É a especialidade da casa. Ou, se preferir, o delicioso mineiro de botas, que é feito com banana frita e queijo minas derretido.
Não deixe de reparar na arquitetura do lugar. A mobília original muito bem conservada, o mezanino com o nome do restaurante, a cozinha ampla e arejada. Em especial, não deixe de reparar na pia. Ela é original, com acabamento de mármore e tem ao seu lado uma inusitada escarradeira, talvez a última da cidade. Lembrança de um tempo em que era normal as pessoas “limparem a garganta” em público. No entanto, você pode ir sossegado que o apetrecho continua lá, mas não é mais utilizado por ninguém.
Penafiel
Av. Senhor do Passos, 121
Centro – Rio de Janeiro
(21) 2224-6870
Orgulho que trago comigo é ser um turista gastronômico. Acredito que sabemos muito de um povo e de sua cultura através da maneira como eles preparam sua comida. Não é à toa que a culinária inglesa é sem sal, a indiana é picante e a italiana é exagerada. Por isso é que saio garimpando por aí sabores que ainda não experimentei.
Não faz muito tempo descobri um petisco típico lisboeta chamado patanisca. Uma espécie de bolinho de bacalhau feito sem batata, só com ovos, farinha e temperos, difícil de encontrar aqui no Rio. Tive que ir de Botafogo até a Tijuca especialmente para conhecer a patanisca de Dona Natalina, do Café e Bar Varnhagem, na praça do mesmo nome.
Recentemente, no entanto, fui apresentado em Copacabana a uma patanisca que merece o título de a melhor da cidade, no Pavão Azul, bar com quase 50 anos de existência, que fica em frente da 12ª DP na Hilário de Gouveia. É um daqueles botequins cariocas autênticos, aconchegante e nada simplório, comandado com dedicação e carinho por duas irmãs simpatissíssimas, Vera e Bete, que se revezam cuidando de cada detalhe.

A patanisca que elas preparam é espetacular, feita na hora a pedido do freguês, e servida por unidade ou porção. Chegam douradas à mesa e são perfeitas. Crocantes por fora, suculentas e fumegantes por dentro. Dá para comer uma dúzia brincando. Principalmente se acompanhadas do chopp, que é muito bem tirado, ou cerveja, que está sempre gelada, Bohemia e Original. Se você já conhece, deve estar concordando. Se não conhece, espere só para ver como a patanisca do Pavão Azul é gostosa.
O segredo com certeza está no tempero e na combinação dos ingredientes, que Vera e Bete não revelam a ninguém. Esse é o motivo da casa servir de 400 a 600 pataniscas todos os finais de semana. E olha que essa não é a única atração gastronômica de lá. No quesito camarão, tem a empada, o pastel e o risoto que são muitíssimo bem avaliados pela clientela que lota o local. E nos finais de semana, quando muitas famílias vão ao Pavão Azul para almoçar, elas preparam uma rabada e um risoto de polvo que é de chorar, segundo quem já comeu e é freguês.
O resto você já sabe, é se render ao clima comunitário dos autênticos botequins familiares onde todos são seus melhores amigos de infância, mesmo que nunca os tenha visto antes na vida.
Pavão Azul
Rua Hilário de Gouveia, 71
(21) 2236-2381
Copacabana – Rio de Janeiro
Descrever o Miam Miam é tarefa difícil. Seria mistura de bar descolado com restaurante fashion? Ou blended de restaurante trendy com lounge bar? Você decide. O fato é que o lugar esbanja bom gosto e surpreende pela modernidade. A começar pelo imóvel, um casarão de 1890, tombado pelo Patrimônio Histórico e decorado com mobília original dos anos 50, 60 e 70. Além de obras de arte, como os ursinhos prateados do artista plástico Richard Gallo, que já estiveram na Bienal de São Paulo. Detalhe: a casa foi residência da avó da proprietária, a chef Roberta Ciasca, que largou a carreira de marketing pelas panelas da escola francesa Le Cordon Bleu.

O amplo salão de pé-direito altíssimo é dividido em dois ambientes. Logo na entrada, de frente para a rua, fica um confortável lounge com sofás, poltronas e mesinhas de centro, onde você pode se esparramar com amigos e apreciar os drinks e aperitivos que fazem sucesso por lá. Minha dica é o mojito, muito bem preparado, com vodka Absolut. Ou ainda a estimulante caipivodka de uva com gengibre. Para acompanhar, peça os famosos rolinhos de rosbife com parmesão e rúcula. Ou as bolinhas de soja com molho de iogurte e hortelã. Opções light e bem saborosas. Tem também um vatapazinho (é assim mesmo que se escreve) aperitivo, para ser comido sobre pequenos discos de tapioca, como um canapé.

Atrás do lounge ficam as mesas do restaurante, todas com pé palito, tampo de fórmica e acabamento em alumínio, típicas das cozinhas brasileiras. Outro requinte do Miam Miam é que todos os móveis estão à venda, por conta de parceria com a loja de antigüidades Hully Gully. Gostou da poltrona? É só pedir que mandam entregar na sua casa. Tem até um cardápio de mobília, com a descrição dos móveis e seus respectivos preços. Mas fique tranqüilo, a comida é bem menos salgada.

A comida é outro diferencial do Miam Miam (que, em francês, significa nham-nham). A cozinha da chef Roberta faz comfort food, que é a tradução dos antigos sabores caseiros para a alta culinária moderna dos restaurantes. Segundo ela, uma “leitura sofisticada de ingredientes simples”. Meu prato favorito, e de uma legião de fãs, é a moqueca de peixe e camarão ao curry com arroz de coco, que vem numa tigela. Um espetáculo. Eu recomendo já com água na boca. E para encerrar, se quiser sobremesa, experimente o crepe de goiaba com calda de queijo.
Você pode ir ao Miam Miam apenas para beber e beliscar no lounge, ou ir só para jantar. O legal é fazer os dois. Se instale no lounge, peça uma bebida e uma entradinha. Assim você ganha tempo para escolher calmamente o que vai jantar em seguida. Combine com o garçon para ele aprontar uma mesa e chamar você quando o prato for servido.
Miam Miam
Rua Góes Monteiro, 34
Botafogo – Rio de Janeiro
(21) 2244-0125
O lugar perfeito para um happy hour bem animado é a primeira filial no Rio do Ovelha Negra. Um bar de Porto Alegre, pioneiro no Brasil em só vender champagne – idéia inspirada nos botecos de Barcelona. Você encontra champagnes, vinhos espumantes, prosecos, cavas e moscatéis de todos os tipos, de todas as procedências e de todos os preços. Em taça ou garrafa, que vem para a mesa geladíssima, dentro de um balde com gelo. Também servem água, que é para combater o fogo da galera.
O Ovelha Negra fica num casarão centenário em Botafogo, na rua Bambina, onde já funcionou uma carvoaria e hoje está totalmente preservado. O pé direito é alto, sem forro, deixando o telhado exposto, e as janelas são feitas com grossas pedras de granito. A decoração despojada e moderna do interior acompanha o estilo. Nas duas laterais do salão, várias mesas com bancos no lugar de cadeiras. No centro, um mega mesão coletivo alto serve a vários grupos ao mesmo tempo. No fundo, um balcão bem grande, onde fica o caixa e uma enorme banheira daquelas antigas, com pernas. Dentro da banheira ficam as garrafas enterradas no gelo para serem retiradas facilmente antes de consumidas.

O público que freqüenta o Ovelha Negra é bem eclético. Em geral, um pessoal acima dos 25 anos, que trabalha pra caramba e quer relaxar curtindo um happy hour longe dos botecos onde só se encontra chopp e cerveja. A exclusividade da champagne dá uma selecionada no ambiente, que é sempre muito agradável. Gente bonita de todas as idades. Pessoas alegres e felizes sob o efeito de suas taças borbulhantes. Pelo estilo da bebida, o lugar é o preferido do público feminino, que chega em bandos. Ela amam champagne!
Infelizmente, só abre de segunda à sexta das 17hs às 23hs. Se você já tiver entrado, ótimo, dá para ficar até depois da meia-noite. Caso contrário, às onze em ponto eles fecham a porta e ninguém mais entra.
Uma dica matadora para pedir, e rezar para que eles tenham, é o cava (espumante catalão) Codorníu Pinot Noir brut. O primeiro cava rosé espanhol todo feito com uva pinot noir. Sabor espetacular! Vale a pena.

Para não ficar bebendo de barriga vazia, eles servem comidinhas leves como sanduíches e tábuas de frios e queijos.
Mas fique atento: muita gente chama o Ovelha Negra de champanheria, o que não está de todo errado, mas tome cuidado para não confundir com o “Xampanheria”, bar de Impanema. Que igualmente só serve champagne, mas é freqëntado por outra tribo, mais “comportada”.
Ovelha Negra
Rua Bambina, 120
(21) 2226-1064
Botafogo – Rio de Janeiro
A Urca é mesmo um bairro muito especial do Rio. Não é de se admirar que morar ali seja quase uma religião, uma filosofia de vida, que ela tenha adoradores em vez de moradores. Casas em estilo europeu, poucos prédios, a mesma rua para entrar e sair, talvez a melhor vista da Baía de Guanabara e a segurança de ter um quartel do Exército como vizinho. Sem favelas, sem violência, sem confusão.
Mas estes não são seus únicos predicados. A Urca também abriga um simpatissíssimo bar sexagenário, aberto em 1940: o Bar Urca, uma pérola do Atlântico – se me permitem o trocadilho. Fica num sobrado de esquina, bem na frente da entrada do Forte São João. Em baixo funciona o bar, onde os clientes são servidos no balcão, e no andar de cima fica o restaurante, que abre de terça a domingo para almoço e jantar.

Do balcão do bar pode se ver o sentinela do quartel a postos em sua guarita, com certeza martirizado por não estar tomando uma Original estupidamente gelada – como a que eu tomei no último domingo, enquanto vigiava a entrada do Forte e a mansidão do mar da Urca.
Nos fins de semana, a mureta do calçadão vira extensão do bar e obriga o garçon a atravessar a rua para deixar todos os clientes satisfeitos, num vai e vem de sardinhas fritas, pasteizinhos de camarão e bolinhos de bacalhau. Muitos moradores levam seus próprios bancos e cadeiras de praia e usam engradados para apoiar copos, pratos e garrafas.
A especialidade da casa comandada por três gerações de Armando Gomes – avô, filho e neto – são frutos do mar frescos com “dedicação de culinária caseira” (segundo o site do próprio Bar Urca).
No balcão, a pedida são os petiscos para acompanhar a cerveja. Em especial, a sardinha frita, que é barata e tem uma grande saída. No restaurante, a caldeirada de frutos do mar faz sucesso com quem a experimenta.
É por esta combinação de localização alto astral, comida fresca e saborosa e atendimento de primeira que, apesar de discreto e escondido, o Bar Urca tem uma legião de freqüentadores assíduos e está sempre entre os melhores do Rio.
Bar Urca
Rua Cândido Gaffrée, 205
(21) 2295-8744
Urca - Rio de Janeiro


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