Publicada desde 15/07/1977.
Na Web desde 12/07/1996.
 
A Janela Internacional traz o que acontece na Europa, pelo redator Fabio Seidl.
Edição de Janeiro de 2007
 

Durante esses dois anos e pouco que escrevi a Janela Internacional, muita gente escreveu perguntando como é trabalhar no mercado português. Respondi sempre que é bem diferente, principalmente por causa da língua que parece que é a mesma, mas não é.
Preparei este pequeno dicionário para ajudar a aliviar o constrangimento dos amigos que pensam em vir pra cá, a turismo ou a passeio.

1. DINHEIRO
Cuidado com as expressões usadas no Brasil para se referir a dinheiro.
Por exemplo, meu amigo Fábio São Pedro, redator brasileiro da DraftFCB outro dia explicou em voz alta num restaurante que não ia viajar porque estava "sem gaita". O que em Portugal quer dizer: "Estou sem pênis".
Outra expressão que confunde o povo aqui é dizer: Me da aí 10 "pilas". Em Portugal, a tradução seria: "Me dê aí 10 pênis".

2. VESTUÁRIO
Se um português disser a você: "Ai, ai, odeio essas mulheres que andam aí de tangas" não estranhe, é normal. Ele na verdade quer dizer: "Odeio essas mulheres que ficam por aí contando mentiras".
Outra expressão que causa confusão é a palavra broche.
"Adorei o broche da sua mulher", quer dizer, "Adorei o boquete da sua mulher."

3. COMIDA
Muito cuidado ao comentar sobre a culinária brasileira com os portugueses. Outro dia um amigo carioca convidou um grupo para um jantar na casa dele aqui em Lisboa: "Vamos lá que a minha mulher faz um bobó que é um espetáculo." Só que Bobó aqui quer dizer...felatio, sexo oral...
Na feira também muita atenção. Perguntar ao seu Manel da banca das verduras: "Como é que estão estes tomates?" pode ser interpretado como: "Como é que vai o seu saco?". Saco, sem ser no sentido poético do termo.
Já se alguém te oferecer: "Chupa?", nada de arregalar os olhos. Só vão te dar um pirulito.

4. COMPRAS
Fez comprinhas e quer levar tudo na caixa para a casa? Ok. Só não diga, em hipótese alguma: "Eu gostaria de levar no pacote." O interlocutor pode interpretar como "Quero que você me possua por trás."

5. AMIGO
Expressão que aprendi recentemente e que não quer dizer absolutamente nada é o tal do "meu amigo". Exemplo: você pergunta qualquer coisa para uma pessoa.
"A Janela Internacional deste mês está boa?"
E o gajo: "A Janela Internacional? A Janela Internacional...meu amigo!"
Em Portugal, a expressão "meu amigo" não precede um comentário mais detalhado, como no Brasil. Ela encerra-se nela mesma. Pode querer dizer "bom" ou "ruim", independentemente da entonação. Você nunca vai descobrir o que a pessoa quer dizer.

6. TEMPO
Se um português disser para você que aquilo vai ser resolvido "logo", espere sentado. Não é má vontade. É que "logo" quer dizer "depois, mais tarde" e não como a gente diria no Brasil...logo.

7. FODA-SE
O Foda-se lusitano tem uma conotação muito diferente do Foda-se brasileiro. Vejam o que aconteceu comigo por exemplo quando recebi a proposta para trabalhar em Lisboa e fui contar a alguns amigos portugueses.
"Olha, recebi uma proposta para trabalhar em Portugal."
"Fodaaaaaa-se!!!"
Fiquei meio chateado, achei os caras meio esquisitos, mas beleza. Um deles que já conhecia melhor as diferenças foda-sesísticas entre os dois países veio me salvar.
"Olha, não leve a mal, mas é que o Foda-se em Portugal quer dizer: nossa, impressionante, incrível."

OS BUROCRATAS

Se alguém me perguntar o que eu gostei mais dessa experiência em Portugal, vai ser difícil responder, teve muita coisa bacana. Mas se perguntarem o que eu gostei menos, é mole: a burocracia.
E como vou embora, lá vou eu encarar o monstrenga de novo. Ligo para a Segurança Social e pergunto o que tenho que fazer para parar de contribuir.
"Basta ir a qualquer posto e levar os documentos não sei das quantas."
Vou ao posto mais perto. Três horas de fila.
"Olá. Eu vim me desligar da Segurança Social, estou de mudança pro Brasil."
"O senhor tem funcionários?"
"Nenhum. Só eu mesmo."
"Então não é aqui. Aqui é só para empresas, tem que ser em outro posto."
"Mas eu liguei e disseram que poderia ser em qualquer posto.."
"Qualquer posto...menos esse!"
Vou a outro posto. Entro em duas filas, uma para entregar os documentos e outra para receber o carimbo de que entreguei os documentos (não podia ser a mesma?). Mais 4 horas. Na hora do último formulário, a dúvida. Estava lá:
"Assinale a opção desejada:

( ) Interromper as contribuições.
( ) Cessar as contribuições."

E eu achando que interromper e cessar eram a mesma coisa. Ainda bem que não tinham mais opções como "parar", "acabar", "terminar" e "suspender". Marquei "cessar", parecia mais dramático. Ainda faltava pagar mais não sei quê (acho que era a pegadinha de despedida) e fui ao caixa eletrônico. Eis que encontro este singelo botão amarelo.
Muito bom. Obrigado, botão do "CorrEgir" por tornar o meu dia na Segurança Social um pouquinho menos miserável.

ENTROU AREIA NA PROMOÇÃO

Este mês em Portugal só se falou no Rally Lisboa-Dakar (antigo Paris-Dakar). O evento é badalado por aqui e os portugueses gostam muito do piloto Carlos Sousa, um dos maiores nomes do automobilismo neste tipo de provas.
E Sousa estava indo bem, em terceiro lugar, até que resolveu dar um faniquito com o seu co-piloto, um alemão, e colocou o sujeito para fora do carro...NO MEIO DO DESERTO.
Só tem um problema, o regulamento diz que nenhum piloto pode terminar nenhuma etapa sozinho. O português teve que voltar 45 minutos depois pra resgatar o alemão. E terminou a etapa em nono lugar.
A repercussão foi péssima.
Mas o mais engraçado é que a marca de celulares TMN, patrocinadora oficial do piloto já estava no ar com uma promoção que era: "Seja Co-Piloto do Carlos Sousa por um dia."
Com os antecedentes de "piti" do português, quem é que vai se habilitar a ganhar essa promoção e ser largado no fim do mundo?

X-MAN PASSA PERRENGUE NO BRASIL

Já chegou às livrarias européias a história em quadrinhos "Wolverine: Saudade". A aventura se passa no Brasil e foi criado por uma dupla de franceses, Morvan & Buchet. Faz parte de uma série chamada "Transatlantique" em que heróis passam por diferentes partes do mundo. E essa vai se chamar Saudade mesmo, em português, em todos os países onde for lançada.
A história mostra o que acontece quando o X-Man Wolverine resolve tirar umas férias no Brasil. Já na primeira página, o mutante com garras leva um perdido pra um bando de pivetes que malocam a moto dele.
Em seguida, o super-herói mais violento dos quadrinhos vê o seu celular ser tomado na mão grande e, na sequência, sucumbe a uma gangue de malacos que sai de uma favela, enchem o gringo de pipoco e ainda arrastam a carcaça dele pendurada numa pick-up pelas ruas.
As férias brasileiras de Wolverine são tão toscas que ele chega a ligar para o seu chefe, Professor Xavier, e confessar: "Esses caras por pouco não conseguiram o que nenhum outro inimigo fez: quase me mataram."
E tudo isso, meus amigos, acontece no Ceará. O local do Brasil onde Wolverine está não fica bem caracterizado, parece o Brasil dos anos 50, com detalhes que lembram Cuba. Mas em um determinado momento o vilão da história, um curandeiro com o hilário nome de "Khura Desonest" faz uma menção à estação de "Fortaleza" e à "Praia de Iracema".
Se no Nordeste está assim, imagina quando os super-heróis vierem encarar o PCC e os Comandos cariocas.
Mas o mais bacana é que depois disso tudo, a história ainda se chama...Saudade.

A MARCA DO MÊS

E lá estou eu tendo que resolver um trabalho até altas horas da noite e percebo que já está meio tarde para conseguir jantar em algum lugar. As cozinhas aqui costumam fechar às 23h.
Surge a sugestão: "Vamos ao Galeto, lá fica aberto até às 4h!"
Até eu, que nem sou muito fã de galeto, começo a fazer a imagem do galetinho no prato, aquela batatinha corada, que beleza.
Chegamos lá, restaurante enorme, cozinha exposta mostrando as labaredas da churrasqueira. Coisa curiosa é que dentro do lugar tem umas vitrines que são alugadas para terceiros. Ninguém aluga, exceto uma tal de "Sapataria Bambi". Surreal. Mas voltemos à vaca fria, ou melhor, ao galeto que eu tratei logo de pedir, mesmo não achando no cardápio.
"Senhor, por favor, pra mim é um galeto!"
"Galeto? Não temos."
"Ah, já acabou? Também a essa hora..."
"Não, não...nós cá não servimos galetos. Nossa especialidade são os bifes, mas se o senhor fizer questão, nós colocamos um franguinho ali na brasa."
Desisti e comi a carne. Na próxima vez que eu quiser comer um galeto em Lisboa, já sei, vou a um restaurante chamado "Os Bifes".

A ÚLTIMA (MESMO)

Galera que mandou email se despedindo da Janela Internacional e desejando boa sorte, obrigadaço: Jomar Pereira da Silva Roscoe - ALAP, Alexandre Chrispim, Rafael Simi, Gustavo Ramos Rosa - Redator da PS10, Daniel Xavier - Cartoon Network USA, Eduardo Storino - Hamlet Comunicação Lisboa, André Félix - Jornal do Brasil, Erica Santos, Roberta Mancini. Priscila Oliveira, Rodrigo Lopes, Deko Schmidt- Sanguebom Filmes, Leo Servolo - Yes Filmes e toda a turma que mandou mensagem no Messenger. Um grande abraço.
Obrigadão! Se tudo der certo, a coluna volta direto de Cannes. A galera interessada em patrocinar a Fenêtre Publicitaire, é só falar com o Marcio no [email protected].

Fábio Seidl foi redator da McCann-Erickson Portugal.- Janeiro/2007)