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  • Designers apontam falhas na nova marca da Prefeitura do Rio

    Logos da Prefeitura do Rio - Comparação

    Não precisa nem ser diretor de arte ou designer para ver de longe que a nova programação visual adotada por Marcelo Crivella prejudica a visualização do brasão da cidade. A imagem chapada dos botos utilizada durante o governo de Eduardo Paes deu lugar a um desenho em traço. O resultado é que a diferença na leitura é clara até mesmo comparando com o logo antigo já deteriorado pelo uso, como na nossa foto. E no próprio Manual de Identidade Visual distribuído pela Prefeitura o brasão ficou totalmente ilegível em todas as reduções desde a página 2.

    Jair de Souza
    Jair de Souza

    Quando a Janela foi conversar com profissionais de design para ouvir suas opiniões, acabou se deparando com uma crítica maior: “Pra que mudou?”, perguntaram Jair de Souza e Bruno Bertani.

    Jair foi enfático:

    – Aqui no Rio, parece uma obsessão. Cada nova administração muda a marca da cidade, causando distúrbio de comunicação e um gasto elevado na refação de toda identidade visual: uniformes, placas, frota de veículos, letreiros, papelaria, site etc.

    Bertani cita que o Design (city brand) como ferramenta estratégica tem mudado a vida de muitas cidades e suas populações pelo mundo, “mas o sucesso desses projetos não se baseiam em mudança de programação visual somente. Nem mesmo um logo genial pode salvar ideias ruins, produtos mal feitos, projetos mal planejados ou administrações incompetentes”. Ele complementa:

    – Em uma visão mais macro de city brand, a troca da logomarca das cidades brasileiras a cada nova administração, sem um motivo específico ou estratégico, não traz muito ganho para a população ou ainda para a percepção da linha adiministrativa, turística ou de investimento para a cidade.

    Bruno Bertani
    Bruno Bertani

    O designer, que participou do projeto da marca anterior da Prefeitura do Rio, destacou:

    – O trabalho sério de branding deveria estar associado a uma visão mais estratégica de desenvolvimento da cidade, não em uma escolha estética ou na necessidade de descolar a nova administração da anterior. Para isso, bastava somente que os novos empossados começassem a colocar em prática suas promessas de campanhas com planejamento e competência. Assim, a nova gestão já sinalizaria para a população que o novo prefeito e equipe são mais competentes do que os gestores anteriores.

    Jair de Souza chega a lembrar a história curiosa de que, em 2000, até o diretor de arte e sócio da DPZ, Francesc Petit, “que aparentemente nunca tinha posto os pés no próprio escritório da sua no Rio, nem nas areias de Ipanema”, ofereceu sem mais nem menos uma nova marca para cidade, de graça (!), que, “felizmente, por causa de várias oposições, inclusive da mídia e de muitos designers, não vingou”.

    Logo após a posse de Crivella, os criativos Marcus Malta e Marcos Pedrosa chegaram a propor a adoção de uma nova marca para a Prefeitura do Rio (veja matéria aqui), usando ainda imagens chapadas e de fácil redução. No entanto, o uso do verde sofreu reações públicas e Crivella abandonou a ideia. O diretor de arte Marcus Malta, inclusive, sequer se envolveu com o desenvolvimento do novo visual.

    A designer Marilu Schneider, diretora da Packaging Design, até considera que na nova marca a tipografia melhorou bastante, já que “a fonte escolhida é de fato mais moderna e deu mais legibilidade para o RIO”. Mas ela aponta onde a equipe errou:

    Marilu Schneider
    Marilu Schneider (foto: Paulo Jabur)

    – Entendo a intenção do colega de fazer uma aplicação mais leve, com o efeito de azul claro caindo sobre o azul escuro, mas o desenho em outline construído somente a base a fios, sem áreas chapadas, trouxe muita complexidade. O resultado é que virão problemas de legibilidade na redução, além dos problemas técnicos, já que os fios vão entupir quando impressos em tamanhos menores e em sistemas que suportem menos detalhes, como rotativas ou flexografia — detalhou Marilu.

    A designer lamentou que no novo brasão não se reconheçam mais os botos. “Perdemos a oportunidade de usar uma linguagem ilustrativa mais moderna para reforçar a presença carismática deles”, opinou Schneider.

    A análise é a mesma de Bruno Bertani: “Inviabilizamos seu uso de forma universal e inovadora”, citou, acrescentando que “mesmo com a melhora na tipologia e o retorno de alguns detalhes dos elementos principais do brasão, a Prefeitura vai perder definitivamente em usos em tamanhos reduzidos e provavelmente em qualidade de aplicações em diferentes superfícies”.

    Jair de Souza ainda dá outra sugestão:

    – Sinceramente, até a palavra prefeitura poderia não existir. Pra quê? Ficaria claro que o uso dessa marca pertenceria apenas à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Nossa maior marca é o nosso nome: RIO.

    E o designer não tem dúvida sobre como resolver a questão:

    – Temos que entender que marca, museus ou blocos de carnaval da nossa cidade não pertencem a nenhum Prefeito. Temos que decretar uma marca e seguir com ela pelo menos por uns 30 anos. Acho que é o caso de o Ministério Público agir e impedir que essa nova mudança — desnecessária, retrógrada e custosa — não seja aplicada — defendeu Jair de Souza.

    Histórico dos Brasões da Cidade do Rio de Janeiro
    Histórico dos Brasões da Cidade do Rio de Janeiro

    O designer Jair de Souza fez para a Janela uma análise sobre a evolução dos brasões adotados pela Cidade do Rio de Janeiro. Vale a pena ler:

    “Faço um pequeno parêntese para dizer que em 1976 o escritório PVDI com Aluísio Magalhaes, Rafael Rodrigues e Nair de Paula Sorares apresentou um novo desenho do brasão à Prefeitura, bem simplificado mas sem perder as principais características simbólicas (golfinhos, torres, flechas, globo, etc). Se não me engano, esse bom projeto ficou na gaveta e nunca chegou a ser aplicado. Considero que até hoje é o melhor brasão já realizado, pela sua simplicidade, bom desenho das formas e correção simbólica.

    Mas em 2001 novo estrago visual é causado pela administração de Cesar Maia que, pegando carona no sucesso popular dos garis laranjinhas da Comlurb, destruiu a tradição da marca, alaranjando toda a identidade visual e simplificando, para muito pior, o desenho anterior (que durou de 1963 a 2000), ao eliminar todas as informações históricas e simbólicas importantíssimas, chegando ao cúmulo de virar de cabeça para cima os dois golfinhos.

    Em 2008 com a nova administração de Eduardo Paes, nova mudança! Mas desta vez parecia que tínhamos amadurecido e que, enfim, o bom senso tinha chegado. O novo design, se aproximando da proposta mais limpa da PVDI de 1976, recuperava todos os elementos simbólicos e os simplificava obtendo dessa maneira uma melhor leitura, mais rápida e contemporânea. Além disso introduzia um evento fundamental e inovador no logotipo: o nome RIO passava a ser o protagonista e não mais o nome PREFEITURA. Simples, limpo, apenas com dois tons de azul e branco, a nova marca (Brasão+logotipo) se afirmou com algo natural, competente e elegante. Pacificou visualmente nossa identidade.

    Agora, em 2018, com uma nova administração, novamente a obsessão se instala e a marca é novamente redesenhada! Pra que? Pelo visto apenas para demarcar território de poder e aumentar os gastos administrativos. Essa NOVA marca retoma o desenho tipo ilustração do antigo brasão desenhado em 1896, redesenhado em 1957 e revisto para melhor em 1958 (ao retirar a vela e a quilha da caravela). Ou seja, uma volta no tempo em que marcas eram tratadas como desenho, como ilustração, e não como símbolos, limpos, sintéticos e fortes para uma comunicação veloz. A marca apresentada pela nova administração, além de não trazer nenhuma novidade positiva, dificulta a leitura em qualquer tamanho, em aplicações reduzidas chega a ser criminal, pois impossível de leitura. Além disso, diminui um pouco o protagonismo do nome RIO fazendo média com o nome PREFEITURA.”

    Jair de Souza

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    Marcio Ehrlich

    Jornalista, publicitário e ator eventual. Escreve sobre publicidade desde 15 de julho de 1977, com passagens por jornais, revistas, rádios e tvs como Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, Jornal do Commercio, Monitor Mercantil, Rádio JB, TV S e TV E.
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