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Perfil: Marcelo Gorodicht, 57 anos de histórias e polêmicas

Marcelo Gorodicht (By Hamdan)

Marcelo Gorodicht, criador e sócio da X-Tudo, atua no mercado publicitário há quase 40 anos, já foi do céu ao inferno mais de uma vez em sua carreira e, recentemente, voltou a dar o conhecido sorriso largo, uma de suas marcas registradas. Sua agência, sete anos após ser inaugurada, ganhou novos nomes em sua composição acionária, endereço novo e instigantes perspectivas profissionais. Isso, no mesmo ano em que sofreu um acidente gravíssimo, para quem se define como um dos highlanders da propaganda e sabe o quanto é visto como polêmico por seus pares, tornou-se mais um desafio que já vem dando vitórias: recuperou contas como as do Flamengo e da Insetisan.

Com 57 anos completados este ano — nasceu no Rio em 26 de outubro de 1961 — Gorodicht, como é mais conhecido, ou Gorô, como é chamado pelos amigos, já em 1981, após a separação de seus pais Isaac e Annita, precisando de dinheiro, havia começado a buscar oportunidades de trabalho.

Nos anos 70, Marcelo Gorodicht, quando ainda tinha cabelo, segurando vela para seu amigo Marcos Calvi e a namorada -- e futura mulher -- Ângela.
Nos anos 70, Marcelo Gorodicht, quando ainda tinha cabelo, segurando vela para seu amigo Marcos Calvi e a namorada — e futura mulher — Ângela.

A primeira surgiu através de um de seus melhores amigos da época do segundo grau e parceiro de corridas de motocross, Marcos Calvi. Marcelo cursava engenharia na Faculdade Santa Úrsula e Marcos estudava Belas Artes na UFRJ. E foi o pai de Marcos, Gian Calvi – um dos pioneiros da ilustração e da publicidade no Rio -, quem deu a Gorô a chance de entrar para o mundo da publicidade através da Casa de Criação, à época um estúdio de arte do próprio Gian. Desembaraçado e muito falante, Marcelo teve como primeira função vender brindes, chaveiros, “ou qualquer outra coisa que pudesse ser feita na Casa de Criação”, que, naquele tempo, tinha apenas um cliente de publicidade, a APM, uma conta de previdência privada, relembra. Logo em seguida, conquistou a conta dos relógios Mido e fez o primeiro comercial de TV da sua vida, com a PPP, a Persin Perrin Produções. Na sequência ganharam a concorrência da conta do CasaShopping e fizeram a primeira campanha do novo cliente.

Apesar de toda a boa vontade para aprender, Marcelo não sabia, por exemplo, fazer um anúncio para jornal. A primeira vez que precisou fazer, sem sequer saber o que significava centímetro por coluna, Wilson Rianelli, contato do Jornal do Brasil, foi quem o ajudou a dar os primeiros passos: “Eu fazia atendimento, prospecção e mídia na Casa de Criação. Fazia tudo o que não fosse de criação, e não porque eu não quisesse, mas porque o Gian era quem fazia e não precisava de mim para isso”, esclarece Gorô.

A Casa da Criação foi se estruturando e ganhando outras contas, como a da Pier – conta com a qual Marcelo ganhou seu primeiro Prêmio Colunistas com o spot da empresa. Premiações não eram o foco de Gian Calvi: “O perfil da Casa não era o tradicional das agências de publicidade, por isso mesmo jamais entrou na ‘panelinha’ que havia naquele tempo. O Gian não gostava de propaganda, na verdade não queria saber de prêmios de publicidade, ele queria fazer ilustração infantil, queria levar a Casa de Criação a ser uma prestadora de serviço, vendendo apenas as ilustrações dele. O Marcos Calvi, junto comigo, foi quem começou a gostar de participar das premiações.”

O crescimento da empresa incentivou Gorodicht a buscar uma especialização e, assim, estudar Comunicação em 1983. Entrou para a Faculdade Hélio Alonso e se formou em publicidade no ano de 1987.

Quando deixou a Casa da Criação, seis anos depois de entrar, era diretor de atendimento e sócio. “Eu sou muito ambicioso, isso às vezes é bom, mas às vezes é ruim. No caso da Casa, tanto foi bom, quanto ruim. Eu comecei a querer entrar na tal ‘panelinha’, ler tudo o que dizia respeito à publicidade, acompanhar os veículos que cobriam o mercado, saber mais sobre as premiações, comecei a querer frequentar os eventos e a conhecer profissionais de publicidade”, assume Marcelo.

OS PRIMEIROS ERROS

Coincidentemente, Sani Sirotsky, um amigo de juventude dos pais de Marcelo, tinha acabado de fechar a agência SGB e montado a Versatta junto com o filho, Nelson. “Um belo dia, a família Sirotsky convidou a nossa para um almoço”, relembra Gorodicht, e continua: “Na ocasião, Sani deu algumas indiretas e perguntou por que eu não ia trabalhar na Versatta. Eu me encantei com o discurso do Sani, o da agência grande, dos casos famosos que envolviam o mercado. Como eu sabia que a Casa de Criação, com aquela estrutura, não cresceria muito além, e apesar de amar as pessoas da família Calvi, vendi a minha parte e aceitei o convite dos Sirotsky”.

A alegria durou pouco: “A Versatta foi uma cagada! Tanto, que pensei: caramba, acabei com a minha vida!”, relembra Marcelo. “Foram tempos complicados, uma verdadeira catástrofe! Entrei como associado, levei as contas que eu tinha para levar, que eram poucas ainda, apenas as que tinham uma relação mais pessoal comigo, porque eu não queria tirar contas da Casa de Criação.”

Gorodicht desenvolveu bons negócios na Versatta. No entanto, problemas internos de má administração fizeram a agência, que com pouco tempo de funcionamento tinha um faturamento muito maior do que a Casa de Criação, começar a ruir. “O faturamento daquela época funcionava de maneira diferente de hoje: o cliente pagava os 100%, a agência retinha os seus 20% e repassava os 80% dos veículos. E a Versatta começou a reter e a não pagar os veículos. A partir daí comecei a ter mil problemas com clientes. Se não fossem as minhas amizades no mercado, que me ajudaram a parcelar aquilo que não foi pago aos veículos, eu estaria arruinado. Saí de lá no final de 1991”, conta Marcelo, até hoje arrependido pela troca.

A Cult foi a terceira agência a fazer parte do currículo de Marcelo Gorodicht, que teve, naquele momento, o publicitário Arnaldo Cardoso como peça chave em sua vida profissional. Procurado por Cardoso, Gorodicht passou a ter a Cult à sua disposição para levar as contas que permaneciam com ele, enquanto Arnaldo e seu irmão Sérgio tinham a da prefeitura de Niterói. “Eu não tive a escola de propaganda que quase todos da minha geração tiveram. Para mim foi sofrido, aprendi caindo e levantando. Muitos vieram da MPM, da DPZ, eu vim da Casa da Criação que nem era uma agência. Aprendi na porrada”.

Arnaldo e Gorodicht se entenderam tão bem que, em um mês, Gorodicht ganhou o cargo de diretor de atendimento. “O Arnaldo pensava grande e me ensinou uma coisa que jamais esqueci: ele acreditava que tudo podia dar certo, que nada era impossível. E ele corria atrás para tentar fazer acontecer”.
Nessa época, surgiu na Cult, procurando por Gorô, um japonesinho indicado pela assessora de imprensa da própria agência, a Marilena Senra. O rapaz queria muito um estágio em agência, mas o feeling de Marcelo apostou que ele teria mais futuro numa produtora e o mandou para a Intervalo, de Mário Barreto e Thomas Wilson. O japonesinho era ninguém menos do que Mário Nakamura, hoje, sócio da produtora Cinerama Brasilis.

Ainda por conta da ambição de Gorodicht, em um acerto inicial com Arnaldo, ficou combinado entre eles que, em algum momento, o primeiro seria incluído na sociedade. No entanto, quando chegou o momento, os dois não chegaram a um acordo que viabilizasse o tal acerto e isso levou Marcelo a pensar em abrir a sua própria agência.

Assim surgiu a D+ Propaganda, em janeiro de 1994, que vinha com a ideia das butiques de criação, tão em alta na década de 1990, fase em que, segundo Marcelo Gorodicht, mais se valorizou a criação e as premiações.

ALÇANDO VOO

O investimento inicial para a criação da D+ veio pelas mãos dos mesmos Mário Barreto e Thomas Wilson, cujo o pai era vice-presidente do Banco Bozano Simonsen e foi quem aportou o capital. A pequena agência, montada pelos três, a primeira butique de criação do Rio, teve, desde seu início, o objetivo de ser vendida ou incorporada depois de um determinado tempo. “Eu não tinha o compromisso de fazer a D+ dar lucro. Meu compromisso era o de fazer com que ela fosse uma agência mega desejada”. Para fazer dupla com Marcelo Gorodicht, o escolhido foi o artista plástico Heleno Bernardi que, à época, pouco sabia sobre propaganda, mas tornou-se um grande diretor de arte. Outro que chegou à D+ em seu segundo estágio, em começo de carreira, para ocupar a vaga de redator, foi o premiado Rynaldo Gondim.

Um dos Colunistas recebidos pela D+, em 1994, em seu primeiro ano, com a presença de um dos novos talentos da publicidade carioca, Rynaldo Gondim, à direita.
Um dos Colunistas recebidos pela D+, em 1994, em seu primeiro ano, com a presença de um dos novos talentos da publicidade carioca, Rynaldo Gondim, à direita.

Apesar do descomprometimento com o lucro, a D+ surpreendeu e deu lucro: “Naquela época os clientes valorizavam mesmo a criação. Eles escolhiam a agência analisando o portfólio de cada uma. Com isso eu consegui atrair para a agência vários profissionais novos, mas badalados, como Sílvio Matos, filho de Mauro Matos.”

Em junho de 1996, a D+ cumpriu seu destino numa união com o paulista Wagner Solano, e passou a se chamar D+W.

Pouco mais de um ano depois, em agosto de 1997, a D+W absorveu a Unità, de Luís Carlos Lopes. Mas após um ano e quatro meses como sócios, Gorodicht e Solano decidiram por um ponto final da sociedade.

Na sequência, mais precisamente em novembro de 1997, o Grupo Total – holding que controlava a Fischer & Justus –, comprou as cotas de Mário Barreto e Thomas Wilson na D+W, criando então a Fischer & Justus Rio, que, por ter acabado de ganhar a conta do Ponto Frio, teve como condição para isso, abrir um escritório no Rio. A agência escolhida para se tornar essa representante foi a D+. A imposição partira do recém-contratado vice-presidente de marketing, Mauro Multedo, “o melhor cliente que tive na minha vida, ele era brilhante”, relembra Gorodicht, que se tornou sócio, com 15% do total, e diretor geral da agência. Mesmo incorporada à Fischer & Justus, a D+ ganhou dois escritórios, um em São Paulo e outro em Brasília, ambos para trabalhar a conta do Banco do Brasil, em razão de a agência já atender a Caixa Econômica Federal.

Nos tempos em que a relação com Eduardo Fischer era só festa.
Nos tempos em que a relação com Eduardo Fischer era só festa.

A Fischer & Justus, que chegou a ter no Rio um escritório com 90 funcionários – onde o primeiro diretor de criação foi André Pedroso –, tinha em seus sócios um ponto vulnerável: “Acho que tanto o Roberto (Justus), quanto o Eduardo (Fischer), são difíceis. Com o Roberto eu não convivi, com o Eduardo, sim, e ele é muito difícil. É brilhante e genial para muitas coisas, mas ele é muito difícil no dia a dia. Ele liga para você às três da manhã e se você não atender, ainda fica puto”, relembra Gorodicht.

Em meio a esse turbilhão, ao sucesso e a tanto dinheiro, Marcelo começou a trilhar os caminhos que tanto poder oferece: “Inegavelmente, além de eu ter ganho dinheiro na D+, mais do que eu tinha ganho nas agências anteriores e de ter vindo de uma família de classe média, sem nenhuma história dentro da propaganda, esse momento me subiu à cabeça”. Notas em colunas sociais dos grandes jornais do Rio, premiações e conta bancária recheada, despertaram o lado garanhão de Gorô.

Naquela época, quem interessava a ele eram as mulheres bonitas e, se possível, famosas. “A fama de galinha me perseguiu até pouco tempo atrás. Raras foram as mulheres legais que se aproximaram de mim por causa disso”, relembra ele. As noitadas tornaram-se habituais, saía todas as noites, dormia três, quatro horas apenas, mas o trabalho não era deixado em segundo plano. Com mesa cativa no Hippopotamus, conheceu, em 1997, Luciana Sargentelli, mãe de sua primeira filha, Gabriela, que nasceu em setembro do ano seguinte. O affair durou por volta de cinco, seis meses e o casal não chegou a viver junto.

Que luta!
Que luta!

Em 2000, Eduardo Fischer encontrou terreno para apresentar à diretoria da empresa o grande projeto de sua vida: transformar a Fischer em uma multinacional brasileira. Naquela época, uma prática das agências estrangeiras tornou-se conhecida: a compra de agências brasileiras. Por conta disso, relembra Marcelo Gorodicht, Fischer costumava dizer “se os estrangeiros vêm para cá fazer esse tipo de negócio, eu vou comprar também, não vou vender.” De olho nisso, convidou Gorodicht para se mudar para São Paulo e assumir o cargo de diretor de expansão na Fischer de lá. Ainda deslumbrado com o mundo da propaganda e tendo a capital paulista como um dos seus objetivos, Gorô topou, prestes a completar 40 anos de idade.

A empolgação com o lado glamouroso dos publicitários estimulou nele a ideia de que ganharia muito bem, viajaria muito e poderia desfrutar da companhia feminina que quisesse. “Virei magnata da propaganda”, resume ele, zombando de si mesmo, para explicar um salário altíssimo e benefícios como motorista, viagens de alto padrão, cobertura no Morumbi, hotéis cinco estrelas durante as viagens a trabalho, entre outros luxos: “Eu pensava que era um magnata, mas não era”, analisa.

A experiência na Fischer – “incrível, diga-se”, afirma Gorô -, terminou em 2003. Com o tempo, Marcelo começou a cair em si e a entender o quanto aquele deslumbramento lhe fizera perder: “Eu via muito pouco a minha filha, meu pai – que havia desaparecido da minha vida – reapareceu com um câncer, e eu estava enorme de gordo, com a saúde ruim. Perdi as contas de quantas vezes eu acordei, no meio da noite, em um hotel, sem saber onde estava, tantas eram as viagens que era obrigado a fazer. Perdi as minhas referências e, a essa altura, minha relação com o Eduardo era insuportável.”

DE VOLTA
Gorodicht e seu pai, Isaac.
Gorodicht e seu pai, Isaac.

De volta ao Rio, desligado da Fischer, escolheu um apartamento próximo ao de sua mãe e levou o pai, Isaac – ainda doente com um câncer – para morar com ele. Àquela altura, a vida profissional de Annita, mãe de Marcelo, na Universidade Estácio de Sá, onde era presidente, parecia, e muito, com a bem sucedida carreira do próprio filho, que em seu retorno, tentava retomar a difícil relação com o pai.
Profissionalmente, a vida de Gorô também tomava nova direção com a abertura da MG Comunicação, sua nova agência em Ipanema, que foi inaugurada num prédio na rua Farme de Amoedo, em fevereiro de 2003, onde antes funcionara a agência Calia. O espaço, cedido por Eduardo Fischer, assim como todo o mobiliário, também fez parte do processo de saída de Gorodicht da Fischer, extremamente tranquilo, diga-se. Inclusive, muitos publicitários que trabalhavam na Fischer Rio migraram para a MG.

Durante seis meses, Marcelo se viu obrigado a colocar dinheiro na empresa e a voltar a fazer trabalhos pequenos, dos quais ele já se desacostumara. A falta de estrutura o levou a buscar um investidor. O escolhido para ajudá-lo nessa empreitada foi Antônio Camanho – ainda sócio da Fischer, se dava muito bem com Gorô –, que o apresentou ao irmão, Manoelzinho, funcionário do Banco Cruzeiro do Sul, da família Índio da Costa, presidido por Luiz Felipe Índio da Costa. Luiz Octavio, um dos filhos de Luiz Felipe, era quem tocava realmente o negócio da família e se interessou em comprar 20% da MG, de olho no lançamento que o Banco faria de um crédito consignado, o primeiro investimento em que se lançavam.

Paralelamente, Mário Nakamura apresentou a Gorodicht um diretor de arte, Marcos Vinícius, o Mavi, irmão de um multimilionário que ficaria famoso tempos depois pelo seu envolvimento na Lava-Jato: o rei Arthur (Arthur César de Menezes Soares Filho), dono do grupo Facility, maior fornecedora de mão de obra terceirizada do governo Sérgio Cabral, envolvida em casos de corrupção ligados ao ex-governador do Rio. A Facility comprou outros 20%. O investimento deu fôlego novo à MG, que ainda ganhou novo endereço na torre do Shopping Rio Sul, local badalado à época – o imóvel pertencia ao rei Arthur.

Mal havia chegado ao novo escritório, Gorodicht recebeu um pedido do sócio, Luiz Felipe Índio da Costa, para empregar o outro filho, que também levava seu nome e era conhecido pelas farras constantes e pela personalidade polêmica – associada ao charme – na alta sociedade carioca. Ele e Gorô se tornaram companheiros de baladas noturnas – tudo muito tranquilo e sossegado, diga-se. O que Marcelo não sabia era da rixa entre Luiz Felipe e seu irmão, Luiz Octavio. Quando o produto de investimento do Banco Cruzeiro do Sul, com uma verba de 15 milhões de reais, foi lançado, Gorodicht se empolgou e contratou profissionais exclusivamente para isso. A surpresa veio a seguir, quando o sócio, Luiz Felipe Índio da Costa, o comunicou que a campanha fora entregue à agência paulista Fox.

A notícia, além de enfurecê-lo, causou desconforto em dobro. Primeiro, porque a seu ver, a campanha da Fox era muito ruim e, aos olhos de parte do mercado – que não sabia que a conta fora entregue à agência paulista -, aquele péssimo trabalho levava a assinatura da MG e, para a outra parte do mercado que sabia, ficava a interrogação de por qual motivo o sócio não entregara a conta à agência da qual possuía ações. Furioso, Gorodicht chamou o rei Arthur para uma conversa, buscando apoio no outro sócio. Da conversa surgiu a ideia de uma reunião entre os sócios para comunicar à Índio da Costa que Marcelo e Arthur comprariam os seus 20%.

No dia marcado os três sócios reunidos à mesa, a surpresa: Arthur comunicou a Gorô que ele e Índio queriam comprar os seus 60%. Apesar de surpreso e confuso com aquela reviravolta, sua resposta foi uma negativa, lembrou que era majoritário, disse que não venderia seus 60% e contrapropôs que os dois deixassem a sociedade. E assim foi. Com uma agência cara nas mãos, pagando aluguel para um dos ex-sócios, sem os investidores, Marcelo se viu numa saia justíssima. Surgiu então, Afonso, diretor comercial do SBT, querendo apresentá-lo a Marcelo Jucá, sócio da 100% Propaganda, agência da qual respondia pelo financeiro e estava colocando um ponto final na sociedade com o também publicitário Gustavo Bastos.

BOSSA NOVA

A nova agência dos Marcelos, Gorodicht e Jucá, recebeu o nome de Bossa Nova Comunicação, mas durou pouco – menos de um ano. Apesar das carteiras de clientes de ambas as agências serem muito boas, da equipe afinada e das “enxugadas” em relação a pessoal e a gastos, a nova sociedade não foi adiante devido a divergências sobre as contas apresentadas pelo departamento financeiro, de responsabilidade de Jucá. Mesmo com muita insistência e várias tentativas, a agência quebrou e os Marcelos fecharam a MG.

DO CÉU AO INFERNO, DE NOVO

“Eu só não tive uma depressão porque não tinha tempo para isso”, relembra Gorodicht, tentando resumir o que foi a sua vida a partir dessa experiência ruim. Além disso, foi obrigado a voltar a morar com o pai numa quitinete, no Bosque dos Esquilos, na Freguesia. “Fiquei sem nada! Com milhares de acertos trabalhistas para fazer e sem perspectiva, tive a ajuda de pessoas espetaculares – como Marcelo Coli, André Barros, Jadilson Figueiredo e outros – que abriram mão de receber. E teve muita gente que se comportou comigo de forma escrota, que me colocou na justiça sem sequer aceitar um acordo.”

Gorodicht com Agnelo Pacheco, a quem representou no Rio.
Gorodicht com Agnelo Pacheco, a quem representou no Rio.

A essa altura, Gorodicht, sem qualquer renda, foi obrigado a vender o que sobrara para poder pagar as dívidas e continuar pagando a pensão da filha. Apesar do “tempo ruim”, dois clientes continuaram com ele: Insetisan e Duloren. Com os dois clientes que lhe sobraram, Gorodicht chegou, em 2007, à agência 40 Graus, de Albano Alves, administrando ambas e outras contas que veio a ganhar. Essa foi a maneira que conseguiu para sobreviver e pagar as dívidas acumuladas: “Não consegui ganhar dinheiro lá. Eu devia muito mais do que ganhava. Tudo o que entrava, saía, e ainda faltava”, recorda Marcelo. Fora todas as dificuldades, ele ainda precisou entubar as reações cruéis do mercado publicitário: “Eu fiquei muito de mal com a propaganda. Lembro de um dia, no Rio Sul, quando dois rapazes que foram meus estagiários na D+, e que nessa época já eram criativos consagrados e não tinham qualquer motivo para desgostar de mim, muito pelo contrário, viraram a cara ao passar por mim. Eu nunca fiquei tão sozinho e jamais vou esquecer disso. Nessa hora, só a família.”

Por iniciativa de Marcos Silveira, que já fazia alguns trabalhos com Gorodicht na 40 Graus, os dois foram conversar com Agnelo Pacheco, da agência Agnelo, de Brasília. O papo resultou na ideia de um escritório da mesma agência no Rio, que passou a ser tocado, a partir de fevereiro de 2008, por Marcelo Gorodicht, Marcos Silveira e Sérgio de Paula, que pouco tempo depois deixou a agência. Agnelo Pacheco não se entusiasmou com os resultados obtidos e continuar com o escritório do Rio se tornou inviável.

LOUCOS MARAVILHOSOS
Marcelo Gorodicht e seu irmão Bruno.
Marcelo Gorodicht e seu irmão Bruno.

A separação dos pais de Gorodicht, nos anos 80, aconteceu quando a mãe dele descobriu que o marido, Isaac, tinha um filho – Bruno –, com outra mulher. Mesmo com a descoberta, Marcelo sempre se deu muito bem com o meio irmão, que relembra: “Somos filhos do mesmo pai apenas e conheci o Marcelo melhor depois dos meus 18 anos. Até essa idade admirava muito ele por tudo o que o nosso pai contava, mas depois pude ver isso de perto. A minha admiração continua e me orgulho de ser apresentado como irmão dele, que é um cara criativo, alegre, brincalhão, com espírito de criança e que, às vezes, faz drama como criança”.

Durante a adolescência do irmão, Gorô ajudou nos estudos e se tornou o ídolo de Bruno, que assim que pôde foi para os Estados Unidos. Começou como manobrista de um restaurante de Beverly Hills, em Los Angeles. De volta ao Brasil, formado em Economia, Bruno começou a trabalhar na área financeira de uma operadora de telefonia, mas inquieto que era, junto com dois amigos de infância, decidiu montar um negócio e criaram o Espeto Carioca – bar e restaurante especializado em petiscos no espeto, como sugere o nome –, que não apenas expandiu, como se tornou uma franquia de enorme sucesso com 33 restaurantes, atualmente.

Em 2010, quando Marcelo ainda estava na Agnelo, Bruno, que sabia o quanto o irmão não estava feliz na agência, acenou com uma proposta irrecusável: “Vamos montar uma agência!” Marcelo ficou tentado, mas não quis se precipitar e preferiu amadurecer a ideia. Três meses depois dessa proposta, Bruno e Alexandre Kantif, seu amigo de infância – que morava nos Estados Unidos e fez dinheiro vendendo fotos para sites de paparazzi – fizeram uma proposta concreta. Alexandre queria investir no Brasil, foi a deixa para, em outubro de 2011, Gorô montar a X-Tudo com o irmão, Bruno, e o investidor, Alexandre. Com as – más – experiências, a nova agência foi encarada de outra maneira: “Eu tinha a cabeça nas nuvens, mas os pés no chão. Eu montei uma agência enxuta, sem delírios”, relembra Marcelo.

Os problemas financeiros que já experimentara, fizeram com que ele abrisse mão dos luxos que vivera em outras agências: “Não só por saber os riscos que eu poderia correr se esbanjasse, mas principalmente porque, àquela altura, eu já não tinha mais vontade de desfrutar de luxo algum. Eu tinha ambição de crescer e medo de me dar mal”.

A X-Tudo cresceu, apareceu, se firmou no mercado e, no mês passado, após sete anos de sua criação, a agência começou uma série de mudanças. Além de trocar a Barra da Tijuca pelo Centro do Rio, ganhou três novos nomes em sua composição acionária. Marcos Pedrosa, que assumiu recentemente a direção de criação, Ricardo Aquino, que entrou em março como diretor de Operações, e Francisco Cantanhede, que há quatro anos comanda a área financeira do escritório, são os novos sócios da X-Tudo. A agência opera ainda com 22 funcionários.

Francisco Cantanhede, Marcelo Gorodicht, Marcos Pedrosa e Ricardo Aquino, sócios da X-Tudo.
Francisco Cantanhede, Marcelo Gorodicht, Marcos Pedrosa e Ricardo Aquino, sócios da X-Tudo.

Pedrosa, um dos novos sócios da agência fala sobre uma das razões que o levaram à X-Tudo: “O Marcelo é o cara de Atendimento e o dono de agência que mais vibra com um trabalho criativo. Ele vibra mais até do que muito criativo!” E relembra quando trabalharam juntos pela primeira vez: “Aos 26 anos, Marcelo me contratou para redator e diretor de criação da D+. O combinado era eu começar numa segunda-feira, mas esse era também o dia em que a agência participaria de uma concorrência superimportante. E aí, perceberam, 48 horas antes da apresentação, que tudo precisaria ser refeito e minha estreia foi antecipada para o fim de semana. Eu e o André Nassar criamos um filme muito ousado, que dono de agência nenhum é doido de apresentar em concorrência. Mas o Marcelo era, e continua sendo, esse tipo especial de doido. Ele passou o sábado e o domingo com a gente. Resultado: deu show na apresentação porque sua convicção era genuína, vencemos a concorrência por unanimidade, o filme foi produzido e muito premiado. Foi o ‘Seu Manuel da Padaria’, para as Páginas Amarelas. E esse foi logo o primeiro job com ele, quando saquei que se tratava de um cara especial. Por isso, é mais do que merecido o slogan criado por ele, para ele mesmo: Imagina se tivesse cabelo!”

Segundo Marcelo Gorodicht, “o mercado publicitário é cruel com quem fracassa. Quando alguém faz alguma coisa e dá errado, parece que tudo aquilo que ela fez antes e deu certo, deixa de existir. Tem gente que nunca trabalhou na Bossa Nova e até hoje fala mal de mim! As pessoas gostam de falar mal das outras, adoram odiar! Pessoas como eu, e outros publicitários que frequentemente são criticados, deveriam ser muito mais admiradas do que odiadas. Nós somos highlanders! A gente fez besteira, a gente não fez besteira, a gente deu certo, a gente deu errado e a gente tá vivo, produzindo no mercado de propaganda do Rio, independentes, sem pedir dinheiro a ninguém! Somos loucos? Loucos maravilhosos do mercado!”

EM FAMÍLIA
Marcelo e sua mãe, Annita.
Marcelo e sua mãe, Annita.

Definir Marcelo Gorodicht como um homem “de família”, aquela expressão quase careta, não é nenhum exagero. Seus quatro – principais – amores são a mãe, Annita, as duas filhas, Anna Julia e Gabriela, e a Filomenga, uma cachorrinha de quatro anos, que ganhou, definitivamente, o coração de Gorô há quatro anos, quando ele, literalmente, a salvou das mãos de moleques que, pasme!, se divertiam jogando pedrinhas nela e num outro filhote que também tentava se desvencilhar dos meninos cruéis.

Filomenga, das ruas para ser a estrela da casa de Gorodicht
Filomenga, das ruas para ser a estrela da casa de Gorodicht.

Marcelo tratou de resgatar Filó – como ela é chamada por ele -, enquanto a outra fugiu. A ideia inicial era tratar da cachorra e colocá-la para adoção, mas os dois se tornaram inseparáveis e Filó conquistou seu lugar na vida do seu herói.

A família conta ainda com as duas irmãs, Sandra e Rivane, além de Bruno, seu único irmão e companheiro mais constante.

A filha mais nova, Anna Julia, surgiu na vida de Marcelo de forma inesperada, mas trouxe ainda mais alegria para a família. Quando trabalhava na Fischer, Gorô teve um breve relacionamento com Aidee Teixeira, modelo que trabalhava em São Paulo à época. Quatro anos depois do término, ele recebeu um telefonema da ex, contando que da rápida relação nascera Anna Julia. O que para a maioria dos homens poderia ser problema, para ele foi, apesar da surpresa inicial, uma enorme alegria: “A Anna Julia era a minha cara, fizemos o DNA para ficar tudo bem claro, mas eu não tinha dúvida. Além disso, ganhei uma família lá em Fortaleza, onde elas moram!”, conta, numa referência à harmonia que conquistou também com o marido de Aidee.

As paixões reunidas: Anna Julia, Filó, Gabriela e Flamengo.
As paixões reunidas: Anna Julia, Filó, Gabriela e Flamengo.

No dia 16 de julho deste ano, Marcelo Gorodicht nasceu de novo. Numa segunda-feira de céu azul sem nuvens, sol e boas perspectivas profissionais para aquela semana, ele decidiu pegar sua moto Burgman 400 cilindradas e fazer um caminho diferente do habitual, rumo à X-Tudo. Foi pela Praia da Barra, respirando a brisa do mar e admirando a beleza natural local. O rolê terminou no quebra-molas sem sinalização, após a primeira curva que fez. Sem placas alertando, nem pintura especial no chão, a lombada o arremessou, junto com a motinha, 20 metros à frente. O resultado foram quatro costelas e uma clavícula quebradas, quatro dias de CTI, seis de internação, mais 20 de cama em casa, além de muita fisioterapia. O acidente foi tão feio, que a alta só aconteceu 80 dias depois do acidente e foi comemorada com um textão em sua conta no Facebook, onde Gorô contou tudo o que lhe acontecera e, na frase final, resumia bem o que sentia depois de tudo aquilo: “Estou vivo, estou feliz!”

Com uma experiência como essa, dá para fazer planos para o futuro? Gorodicht afirma: “Não sei quais serão os meus planos para os próximos dois anos, mas certamente eu não vou morrer trabalhando em publicidade. Não vou parar de produzir, mas em algum momento vou fazer alguma outra coisa que eu possa dispor de mais tempo para mim.”

Marcelo é judeu, “não sou ortodoxo, mas frequentar a sinagoga me faz muito bem.”

Sua paixão maior, o Flamengo, fez parte de seu processo de recuperação quando a vida profissional lhe mostrou o pior dos lados. De frequentador ocasional, passou a torcedor fanático (de ir até a jogo de basquete e polo aquático) e, nesse final de semana, ajudou, comandando o marketing da campanha, a eleger o novo presidente, Luiz Rodolfo Landim.

Fala sério! O ano de 2018 poderia terminar melhor para Marcelo Gorodicht?

(A foto principal da matéria é do Studio H, de Al Hamdan. As demais são do acervo pessoal de Marcelo Gorodicht)

Renata Suter

Renata Suter

Jornalista
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